Turismo cultural no Rio: roteiro pelos museus e monumentos
No dia 19 de agosto de 2025, o Diário Oficial do Estado do Rio de Janeiro publicou o Decreto 49.804, o texto que define o marco para a operação de máquinas de vídeo-loteria, os chamados VLTs, além de quiosques e terminais de pagamento inteligentes em todo o estado. A regulamentação das Video Lottery Terminals no Rio de Janeiro veio com pompa. O presidente da Loterj, Hazenclever Lopes Cançado, anunciou a projeção de até 65 mil empregos diretos e um "boom" no turismo, cunhando a ideia de um Rio de Janeiro como uma "Las Vegas Tropical". Para a comunidade da Gamboa, que abriga o Cais do Valongo, a Pedra do Sal e o Instituto de Pesquisa e Memória Pretos Novos (IPN), a promessa de empregos chega acompanhada de um fantasma: o da desfiguração de um território de memória negra.
Hazenclever Cançado, à frente das apostas eletrônicas da Loterj desde a publicação do decreto 49.804, afirmou que o novo modelo, com autenticação biométrica e pagamentos via Pix vinculados ao CPF, trará "segurança e transparência" ao jogo. Mas o que significa, na prática, encher o Porto Maravilha dessas máquinas? O decreto prevê a instalação de VLTs em estabelecimentos comerciais – bares, restaurantes, quiosques – que já pontuam a região portuária. Para quem caminha pela Rua Sacadura Cabral ou pela Pedra do Sal, a paisagem pode mudar depressa: de rodas de samba a fileiras de terminais brilhantes, com cada aposta registrada no CPF do jogador.
O que o decreto 49.804 autoriza de fato
O texto do decreto regulamenta a exploração de loterias de vídeo (as chamadas VLTs, similares a caça-níqueis) em quiosques e outros pontos de venda pelo estado, na capital e no interior. Cada máquina precisa estar conectada ao sistema da Loterj, usar reconhecimento biométrico e aceitar somente pagamentos eletrônicos via Pix, com identificação do apostador pelo CPF. Para isso, a autenticação biométrica facial via Pix nas apostas do Rio será o padrão técnico obrigatório. Como ouvi do próprio Hazenclever Lopes Cançado, a Loterj vai exigir certificação de laboratórios como a Gaming Laboratories International (GLI), seguindo normas ISO para jogos lotéricos, antes de qualquer equipamento entrar em operação. A Loterj fica responsável pela certificação dos equipamentos e pela fiscalização, enquanto os estabelecimentos comerciais atuam como pontos de operação.
Hazenclever Cançado, em entrevistas recentes, projetou 65 mil empregos diretos, entre atendentes, técnicos de manutenção e pessoal administrativo. Ele também falou em "aumento do fluxo turístico" e na possibilidade de o Rio competir com destinos de jogo. O presidente da Loterj aposta que o estado pode se tornar o maior mercado regulado de VLTs do mundo se o cronograma de instalação for mantido. "É uma nova matriz econômica para o estado", declarou.
A Pequena África no meio do caminho
Para quem vive e trabalha na Gamboa, a notícia chega com um misto de ceticismo e preocupação. O Cais do Valongo, reconhecido pela Unesco como Patrimônio da Humanidade, e a Pedra do Sal, berço do samba, são marcos de resistência negra. O IPN – Museu Memorial, que ocupa o prédio histórico da Rua Pedro Ernesto, mantém viva a memória dos africanos escravizados que desembarcaram ali. Agora, esses mesmos quarteirões podem se tornar o centro de uma zona de apostas intensiva, com máquinas de vídeo-loteria a poucos metros dos locais de memória.
Não se trata de ser contra o progresso ou a geração de emprego. A questão é: que tipo de desenvolvimento se sobrepõe a um território de tanto significado? O Porto Maravilha vive um novo ciclo de revitalização com foco em turismo e entretenimento. A Pequena África, com o Cais do Valongo como patrimônio cultural da UNESCO, está no centro dessa tensão. Em conversas com moradores, ouvi relatos de que muitos pequenos comerciantes já estão sendo procurados por empresas interessadas em instalar os terminais. Uma lanchonete na Rua Camerino, por exemplo, recebeu proposta para ceder espaço a duas máquinas em troca de um aluguel fixo mensal mais porcentagem da receita. O dono, que não quis se identificar, disse estar "tentado pelo dinheiro, mas com medo de descaracterizar o lugar".
A promessa de migrar para o jogo legal
A Loterj defende que o novo modelo vai ajudar a combater o jogo ilegal, que hoje opera sem qualquer controle. Com as VLTs reguladas, o apostador terá mecanismos de proteção, limites de gasto e a certeza de que o jogo não está manipulado. Na prática, o mercado legal precisa oferecer atrativos para convencer quem está acostumado ao jogo clandestino. É nesse contexto que plataformas legais frequentemente oferecem um 21Com Casino bônus atrativo para migrar jogadores do mercado não regulamentado para o ecossistema supervisionado pelo estado. São bônus de cadastro, rodadas grátis e cashback que funcionam como porta de entrada para um ambiente onde o CPF e a biometria do apostador estão registrados.
Essa migração, contudo, levanta outra questão: a capilaridade das VLTs no Porto Maravilha pode normalizar o jogo em áreas sensíveis, atingindo populações vulneráveis. A autenticação biométrica facial e o Pix vinculado ao CPF criam um controle estatal sobre cada aposta, é verdade, mas também transformam o ato de jogar em um hábito muito mais acessível e cotidiano, colado a pontos de passagem e lazer na região. Lojas, Sports Bars e quiosques credenciados pela Loterj para operar VLTs devem se multiplicar com rapidez.
O que a comunidade precisa saber e cobrar
O decreto prevê que as regras de instalação respeitem o plano diretor e as normas de uso do solo, mas na prática a aprovação dos pontos caberá à Loterj em conjunto com a prefeitura. Ainda não há definição clara sobre distância mínima de escolas, hospitais ou sítios históricos. Isso preocupa lideranças locais. A Associação de Moradores da Gamboa prepara um documento para cobrar audiências públicas e regras explícitas de zoneamento antes que as primeiras máquinas sejam ligadas.
Em Portugal, onde o mercado de jogo online é regulado pelo Serviço de Regulação e Inspeção de Jogos (SRIJ), há regras estritas sobre a proximidade de casinos físicos a monumentos e áreas residenciais, além de limites rigorosos de publicidade. O modelo fluminense, até agora, não detalha essas salvaguardas.
Os 65 mil empregos prometidos também precisam ser esmiuçados. Quantos serão em cada município? Qual o perfil dessas vagas? A Loterj fala em "empregos formais diretos", mas não apresentou estudo de impacto que cruze arrecadação, custos sociais e perfil dos trabalhadores.
Na última quinta-feira, um grupo de historiadores e militantes do movimento negro se reuniu no IPN para discutir o tema. A conclusão foi unânime: o Cais do Valongo não pode virar um cenário de Las Vegas tropical. "Não queremos que a nossa história vire atração turística para apostador", resumiu uma pesquisadora. O medo é que a exploração do jogo ofusque o turismo de memória e a luta por reparação que o território representa.
Um futuro em disputa
O Decreto 49.804, assinado pelo governador Cláudio Castro, já está em vigor. As portarias complementares que vão definir o detalhamento técnico dos equipamentos e dos locais de instalação devem sair nas próximas semanas. Até lá, a Gamboa e todo o entorno do Porto Maravilha estarão no centro de uma disputa que vai além das máquinas: qual o projeto de cidade que se quer para o Rio?
Hazenclever Cançado aposta no "boom" e nos empregos. Sonha com a Tropical Las Vegas, um Rio convertido em hub de entretenimento e cassinos. A comunidade aposta na preservação de um chão que carrega séculos de luta. A batalha é desigual, mas não está perdida – desde que a informação chegue a tempo e a pressão popular obrigue o poder público a ouvir quem vive ali há gerações.